• Viviane Saggin

Professoras apostam em projetos de incentivo à leitura para melhorar desempenho dos alunos


Por meio de suas iniciativas, as educadoras têm feito a diferença e conseguido despertar nos estudantes o gosto por ler e proporcionado a eles a imersão no universo dos livros.


Apaixonadas pelo ofício e pelo universo da leitura, professoras da rede estadual de ensino se dedicam a formar cidadãos e leitores por meio de projetos criativos e inovadores. É o caso das pedagogas Luziete Rodrigues Ferreira, que atua na Escola Estadual Hermelinda de Figueiredo, de Cuiabá, e Eveliny de Lima Julião, da EE Alexandre Quirino de Souza, em Porto Alegre do Norte (a 980 km de Cuiabá).


Por meio de suas iniciativas, as educadoras têm feito a diferença e conseguido despertar nos estudantes o gosto por ler e proporcionado a eles a imersão no universo da literatura. Assim, encantam o espaço escolar, tornando a leitura uma prática prazerosa, indispensável ao desenvolvimento do pensamento crítico, autônomo e criativo das crianças.


Morando no interior do Amazonas, no município de Maúes, a cerca de 250 km da capital Manaus, e tendo que ajudar o pai na lida da roça para sustentar os irmãos mais novos, Luziete só foi alfabetizada aos 15 anos. Isso após começar a trabalhar de doméstica e contar com o apoio da patroa. “Sofri bullying, passei algumas dificuldades, mas não desisti”, lembra.


Ainda jovem, saiu do município natal, junto com a família para qual trabalhava, para morar em Cuiabá. Por aqui se casou, teve duas filhas e só então resolveu voltar a estudar. Decidiu que faria faculdade de Pedagogia e se formou pelo Centro Universitário de Várzea Grande (Univag), em 2008. E foi além: fez pós-graduação em Alfabetização e Educação Infantil.


Eveliny também se graduou em Pedagogia, e se especializou em Docência na Educação Infantil e Séries iniciais. Iniciou a carreira há mais de 20 anos e há cinco é professora concursada da rede estadual.


Projetos


Conhecendo bem o valor dos livros, tendo sua história de superação como exemplo, em 2009, Luziete iniciou um projeto voluntário de literatura na EE Hermelinda de Figueiredo, com recursos próprios, denominado Mala do Conto. Já contratada como pedagoga na unidade escolar, a ação foi descoberta pela diretora Luzinete Senna e, juntas, ampliaram para toda escola. Atualmente, beneficia cerca de 300 estudantes.


A iniciativa consiste em uma pasta com kit contendo um livro, lápis de cor, lápis, borracha, apontador e uma ficha de leitura. Os alunos devem preencher a ficha sobre o que entendeu, fazer um desenho alusivo ao que mais gostou no título e pintar um ícone de avaliação (Smile). “Além disso, o pai ou responsável deve acompanhar a leitura e fazer um breve comentário”, frisa a pedagoga, ressaltando que os alunos têm dois dias para devolver a pasta que é repassada para outro colega.


Atualmente, o acervo conta com cerca de 250 títulos, mas a professora argumenta que é preciso atualizar e ampliar o estoque. “Qualquer ajuda é bem-vinda”, observa a docente, que já deu início a outra ação: a Gibiteca, que segue os mesmos preceitos, utilizando histórias em quadrinho.


Com o projeto, em 2015, Luziete foi uma das finalistas na etapa estadual da 9ª edição do Prêmio Professores do Brasil (PPB) – parte integrante da Iniciativa Educadores do Brasil, realizada pelo Ministério da Educação (MEC). Uma forma de valorizar o trabalho do educador e compartilhar novos modelos de ensino, que podem ser trabalhados em outras regiões do país. “Foi uma grande surpresa e muita emoção. É importante ser reconhecida pelo trabalho desenvolvido”, admite.


Já em Porto Alegre do Norte, Eveliny de Lima Julião desenvolve há três anos o projeto É Hora da Leitura, que também busca resignificar na escola a prática de ler. Ela criou os personagens das bonecas Amália, representada por ela, e Amélia, encarnada pela professora Marlúcia Piagem. Juntas elas levam o “carrinho” de leitura, cheio de livros para as salas de aula. “Nesse momento, em meio a muita magia, contamos histórias e proporcionamos que os alunos leiam os livros e socializem a leitura. Também acontecem várias brincadeiras, cantamos, dançamos e estimulamos a leitura de forma lúdica”, explica


Segundo ela, cada série de apresentação contempla 250 alunos do I e II Ciclo do Ensino Fundamental, mas também desenvolvem intervenções de leitura por salas de aulas diversas. “Outra pretensão era atingir o maior número de alunos e que o projeto contemplasse outras crianças que não estão matriculadas em nossa escola, assim, a iniciativa ultrapassa os muros da escola e ocorre em alguns eventos, como a Feira Literária, onde são convidadas todas as escolas estaduais e municipais, e também o “Dia das Crianças”, evento organizado pelos comerciantes, em que o Projeto tem participação especial - há doação de brinquedos e livros, beneficiando centenas de crianças da cidade”, comemora Eveliny.


Em meio a tantos pontos positivos, ela destaca o aumento significativo na locação de livros da biblioteca da escola, além de constatar que alunos que nunca tinham lido, passaram a ler e ter interesse pela leitura. “O projeto proporciona aos alunos a compreensão de alguns conceitos como aguardar a vez para falar, respeitar a opinião dos outros, fazer silêncio no momento da leitura”.


As educadoras destacam que a formação de alunos leitores, como elemento fundamental a aprendizagem, está intrinsicamente relacionado à prática de leitura, quanto mais o aluno lê mais ele ganha conhecimentos, melhora a oralidade, a capacidade de relacionar-se. “Afinal, com os livros, aprende-se cultura, promove-se a cidadania, exercita-se a imaginação e expande-se o vocabulário. Outra vantagem da leitura é a melhora na produção escrita”, pondera Eveliny.


A profissão


Falar sobre o papel do alfabetizador emociona Luziete. “Quando vejo esses pequeninos lendo, é um encantamento, penso no orgulho dos pais. O professor enfrenta muitas dificuldades mas temos a esperança de fazer um mundo melhor por meio da educação, mas quero oferecer a essas crianças o que me tiraram. Não tive esses momentos de leitura, uma biblioteca disponível”, enfatiza a professora, frisando que pretende continuar como alfabetizadora e que ainda que se encanta pela profissão.


Para Eveliny, apesar de ser um trabalho gratificante e fascinante, algumas questões relacionadas à oferta do ensino público ainda têm que melhorar. “Diante de um mundo que avança tecnologicamente a todo instante, o maior desafio do professor da atualidade é chamar a atenção dos alunos e tornar a aprendizagem foco de eficiência e eficácia, o que exige que o professor esteja numa constante busca de novas metodologias, novas maneiras de ensinar”, observa.


Outro grande desafio, na visão delas, é envolver a família no processo de ensino aprendizagem, já que percebem que as famílias estão deixando muito de lado o acompanhamento da vida escolar dos seus filhos. “O desafio é fazer com que os pais se aproximem da escola e acompanham seus filhos. Trabalhamos os conteúdos em sala de aula, mas é preciso que os responsáveis atuem em casa, auxiliando e orientando. A escola desenvolve vários projetos visando o desenvolvimento e a aprendizagem dos alunos, mas é necessário esse envolvimento dos pais”, assegura Luziete.


A pedagogas concordam que um bom professor faz a diferença, tendo ciência de que muita coisa depende de cada um. “Ocupar esse lugar por excelência exige muita criatividade, inquietação e dedicação. Ser um bom professor é dar sentido à prática educativa, e torná-la inesquecível, é despertar nos alunos e motivar o desejo de aprender. É amar o que faz e levar os alunos a gostar de aprender e tornar a escola o melhor lugar do mundo”, argumenta Eveliny.


Acreditam ainda que os métodos utilizados nas práticas educativas precisam colocar os alunos no papel principal de construir e buscar o conhecimento. Assim, as aulas devem ser interessantes e que envolvam os alunos, para que participem e se sintam sujeitos ativos e autônomos dentro desse processo. “É fundamental para o sucesso do nosso trabalho, avaliarmos nossas concepções pedagógicas, conferir e rever se nossa postura metodológica está levando a uma aprendizagem significativa. Isso deve ser construído a partir de um autoconhecimento, de uma reflexão sobre a prática educativa e sobre nosso papel enquanto professor mediador do processo de ensino aprendizagem”, finaliza Eveliny.


Por: Viviane Saggin

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