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Abertura do III Festival Juruena Vivo e V Mostra Científica Cultural do Vale do Arinos é realizada e

Elizandra Trindade
28 de out. de 2016
16 min de leitura

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No dia 27 de outubro, quinta-feira, aconteceu em Juara na Praça dos Colonizadores a Abertura da V Mostra Científica Cultural do Vale do Arinos, evento realizado junto com o III Festival Juruena Vivo – Comida, Água e Energia. O evento tem três dias de duração (27 a 30/10), entre as atividades e oficinas expostas na programação destacam-se: Mostra de documentários, Iniciação à flauta doce, Iniciação à viola caipira, Iniciação ao violão, Iniciação à percussão, Reciclagem e arte, Mostra sociocultural dos povos indígenas da bacia do Juruena, Feira de Produtos regionais e show musicais com artistas regionais.


Na abertura do evento palestrou primeiramente a professora Lisanil Patrocínio do Campus de Juara, em seguida o diretor do Campus da UNEMAT de Juara, Gildete Evangelista, posteriormente a moradora de Altamira do Estado do Pará (PA) Daniela Silva do Movimento Xingu Vivo para Sempre, também a co-fundadora da Rede Juruena Vivo e membro da OPAN (Operação Amazônia Nativa), Andrea Jakubasko e por último o padre Edilberto Sena, morador de Santarém e integrante do Movimento Tapajós Vivo. O inicio das palestras ocorreu por volta das 21h30min da noite de ontem e finalizaram-se próximo das 23h.


O tema de abertura foi “Rios e Redes – A Importância dos movimentos sociais na Conservação da vida no Tapajós, Teles Pires e Juruena. Houve troca de experiências, esclarecimentos sobre os impactos que as instalações de hidrelétricas causam ao meio ambiente e como comprometem a vida de inúmeros povos indígenas e da população ribeirinha que depende dos rios e do território para sobreviver. Várias etnias indígenas marcaram presença na abertura do III Festival Juruena Vivo, procurando fortalecer a aliança em defesa da vida e dos direitos humanos: Povo Manoki, Rikbatsa, Nambikara, Kayabi, Apiaká, Munduruku e Myky, o povo indígena Pareci e Enawene Nawe não conseguiram estar presentes no evento.


As variedades de povos demonstram a riqueza da diversidade cultural presente em Juara e no Estado de Mato Grosso que precisam ser respeitas e valorizadas, pois certamente existe muito conhecimento que podemos aprender com esses povoados, que já viviam nas terras brasileiras antes da chegada do “homem” branco, o qual lentamente começou a modificar o espaço onde vivem, alterar seus costumes e devastar a natureza em busca de riquezas, o que atualmente permanece causando vários impactos ao nosso planeta e contaminando a saúde de todos os habitantes do mundo.


Cada palestrante proferiu informações importantes, expondo temas que certamente contribuíram para o aprendizado do público presente. Segundo conhecimentos de uma palestrante em 2014 o primeiro Festival Juruena foi realizado em Cotriguaçu, o segundo no município de Juína e neste ano a cidade de Juara foi escolhida para realizar o III Festival Juruena Vivo que a cada ano vem contando com a participação de novos movimentos sociais, entidades e povos em defesa dos rios e da vida humana.


Após os debates uma apresentação cultural tradicional foi realizada pelo povo Kayabi e vários moradores do município de Juara acompanharam a exposição.


A organização do evento foi realizada pela UNEMAT, Rede Juruena Vivo, LEAL (Laboratório de Estudos e Pesquisas da Diversidade da Amazônia Legal), CAPES, com apoio da Prefeitura Municipal de Juara, Operação Amazônia Nativa (OPAN), Instituto Centro de Vida (ICV), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Office National des Forêts – ONF Brasil, Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (FONASC), The Nature Conservancy (TNC), Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Centro de Trabalho Indigenista (CTI), Associação de moradores de Fontanilhas, Coletivo de Artes Integradas Cultura Alternativa e Resistência Esporte e Lazer – Aacuarela.


  • Somos_Contra_o_Roubo_de_Direitos_-_NÃO_A_PEC_241

Confira abaixo a fala de cada participante da mesa de abertura:


Fala da professora Lisanil Patrocínio na mesa de abertura da V Mostra Científica Cultural do Vale do Arinos e III Festival Juruena Vivo na noite de quinta-feira (27/10) na Praça dos Colonizadores.


“No campus da UNEMAT temos 241 pessoas de várias etnias, tanto do estado de Mato Grosso como de fora, sendo para nós motivo de muita alegria. O que estamos fazendo aqui é buscar praticar uma educação popular, da aproximação da universidade com movimentos sociais, com pessoas atingidas por barragem, agricultores familiares, mulheres e juventude. Então, nós militamos muito nessa questão da cidadania e de direitos humanos, e como nos ensina o professor Boa Ventura de Souza Santos são estes movimentos de mulheres e jovens que precisam do nosso apoio, porque são esses movimentos e grupos, sobretudo na America Latina com nosso olhar de uma epistemologia do sul, temos uma sociedade totalmente impregnada de uma cultura chamada de norteadora e é preciso construir uma cultura sul neadora, valorizar a nossa cultura, o que há e tem de melhor. Nós, conosco, entre nós que construímos e procuramos um mundo melhor, esse mundo melhor não é um ambiente pra um e para outro, não é a riqueza para um e pra outros não, o que queremos é um mundo melhor para todos. Então quero agradecer muito e penso que aqui nós cumprimos com esse papel, de acolher os movimentos para dentro da universidade e agradecer a todas as entidades que compõe hoje a Rede Juruena Vivo e que a UNEMAT não somente enquanto associação docente, mas enquanto instituição possa fazer parte desta rede que tenho certeza que vai cumprir um importante papel aqui nessa Rede Juruena. Muito Obrigada”.

Em seguida houve o pronunciamento do diretor da UNEMAT, professor Gildete Evangelista.

“Boa noite senhores e senhoras, em nome da professora Lisanil gostaria de agradecer a presença de todos e também dizer que este evento é importante para expor a essência dos trabalhos de professores da universidade do Estado de Mato Grosso do Vale do Arinos, além disso, é um momento em que com certeza podemos aprender muito. Nós vamos ao encontro daquilo que nós sempre buscamos ao nosso Campus que é o conhecimento científico aliado a uma educação mais social e popular. Gostaria também de lembrar que o evento deste ano está sendo realizado em conjunto com as atividades da etapa do III Festival Juruena de modo que nós agradecemos aos nossos parceiros, as várias entidades que compõem esta rede de trabalhos do Juruena Vivo, então gostaria muito de agradecer a presença de todos e que tenham um bom proveito desses três dias dos nossos trabalhos aqui em Juara. Muito obrigado pela presença e boa noite”.


Pronunciamento de Daniela Silva do Movimento Xingu Vivo Para Sempre!


“Boa noite a todos e a todas aqui presentes, quero saudar a nação Munduruku e todos os povos indígenas que se encontram aqui presentes. É muito importante participar destes momentos, compartilhar histórias, lutas e resistências. Quero iniciar minha fala com uma poesia de um grupo de juventude de uma rede chamada Rios de Encontros de Marabá, o nome da poesia é “Carta de Mariana à Amazônia””.


“Querida Marabá, parente amazônica!


Saudações de Mariana


tua irmã mineira


ainda tremendo embaixo de lama.


Escrevo contra o tempo


num labirinto de vergonha sem luz


para te inquietar e encorajar...


Irmã, mesmo sentindo que era mentira


deixei promessas verdes


me seduzirem para me tornar gente


e matar numa vez meu medo da fome.


Ganhei uma casa e fiquei tão consumida


pelos sonhos na palma de minha mão


que parcelei o futuro sem perceber...


Amiga, lê os resíduos do meu engano,


debochando do meu grito seco.


Aprende comigo, minha parente


o custo tóxico


de falar sim quando pensa não.


Nem se esconda atrás da lei do silêncio


que hoje abriga tanto gigantes...


Marabá quando seus navios passarem


gordos de tanto ferro, boi e madeira


tua chance já terá passado!


Terás somente o tempo


Para bater um último selfie


diante de uma rabeta correndo


à nascente do Tocantins em chamas!


Irmã preserve os Pedrais do Lourenção


seres sábios que vão te proteger


dos navios da morte


e guiar as chuvas da madrugada


se juntos declararmos “aqui não, Vale”


vamos nos livrar desta lama suja


e cuidar da beleza amazônica viva!


Meu nome é Daniela Silva sou do movimento Xingu Vivo Para Sempre, movimento ambientalista, de resistência, contra construção de hidrelétricas no Rio Xingu, e contra construção hidrelétrica nos rios da Amazônia. Então o que mais me inquieto quando cheguei neste evento foi o cartaz exposto “O que Aprendemos com Belo Monte?”, pessoal é evidente que o que aprendemos com Belo Monte é que não se deve construir barragens em nossos rios, queremos nossos rios livres, se a gente tem o nosso direito de viver livres e direito ver nossa família livre e saudáveis, então minha fala vai muito no sentido de denunciar o que aconteceu em Altamira, um crime legitimado pelo estado brasileiro, um crime que viola os direitos da população indígena, populações ribeirinhas, dos seres humanos e é importante nos estarmos nesta mesa deste evento para estreitar, fortalecer a aliança dos povos dos rios, para dizer não a estes projetos de hidrelétricas que vem somente destruir a vida das populações, que é um modelo de desenvolvimento altamente predatório, predatório porque desconsidera a vida das populações, a vida dos povos que sobrevivem do rio e do território, então é de fundamental importância estreitarmos, fortalecermos as nossas alianças dos rios para dizer não a esses modelos de geração e distribuição de energia, para dizer que nós queremos um modelo de desenvolvimento que considere as pessoas, a natureza e o ser humano. E a juventude nesse sentido tem um papel fundamental, o que a gente observa é que hoje no Brasil está nascendo uma nova esquerda, uma esquerda que tem vez ambientalista e a juventude tem sido protagonista, a gente teve recentemente neste final de semana na região de Altamira, onde estão querendo tirar pessoas de uma comunidade da Vila da Ressaca para se instalar a mineradora Belo San e observamos o protagonismo de mulheres, da juventude dizendo não, porque não querem sair dali daquele ambiente, então se nota que as mulheres e a juventude tem sido protagonista desse nova esquerda que diz não, que jamais negocia o seu direito, dignidade, vizinhança, o direito de viver bem e ser rico, porque quando você sofre por um processo de expropriação você vai para a cidade e fica empobrecido então estamos dizendo não, porque queremos viver e sobreviver de maneira digna no nosso território, com nossos rios e frutos, vivendo e comendo bem. Então estamos reafirmando o nosso compromisso, Belo Monte esta com os paredões erguidos, mas para nós do movimento Xingu Vivo para Sempre Belo Monte não é fato consumado e dizer não, não a Belo Monte, dizer pare Belo Monte mesmo com os paredões erguidos nós queremos dizer que nós somos contra a construção de hidrelétricas aqui no Rio Juruena, no Tapajós e todos os rios da Amazônia do mundo e reafirmamos nossa aliança de vida, estamos na luta, resistindo a esses projetos e ficamos alertas principalmente com o povo de Tapajós, ficamos alertas com os golpes desses governos, porque esses projetos não são somente de um governo, mas de vários, ficamos atentos e vamos lutar pela garantia de nossas vidas, nossos rios livres, sem barragem. A gente espera ver todos vocês no espaço social OPAN Amazônico no Peru para reafirmarmos nossa aliança dos rios da PAN Amazônia. Saue.”



Pronunciamento de Andrea Jakubasko, a co-fundadora da Rede Juruena Vivo e membro da OPAN (Operação Amazônia Nativa).


“Boa noite, estou muito alegre de estar neste terceiro encontro, agora estou como convidada e não como organizadora. Quero agradecer muito, primeiro parabenizar a UNEMAT por ter acolhido a Rede Juruena, se mostrar aberta e interessada em participar da rede, agradecer também o município de Juara, dizer que fico muito feliz em retornar a esta cidade, pois fazia mais de 15 anos que não vinha aqui. Na realidade a primeira vez que vim para Juara foi na época do pioneiro projeto de Tucum, sendo o primeiro projeto de formação de magistério indígena do Brasil, que foi aqui em Mato Grosso e agradecer muito ao Vitor da OPAN (Operação Amazônia Nativa) que fez contato direto, a Lili da Aacuarela, e dizer que estou muito feliz de nos encontrarmos outra vez e agora na cidade de Juara. Antes de começar minha fala queria também fazer um ritual que faço todos os anos para saber se realmente todo mundo já chegou, então vou começar perguntando Manoki está aí, Rikbatsa está aí, Nambikara está aí, Kayabi está ai, Apiaká, Munduruku, Myky, o povo Pareci e Enawene Nawe não estão aqui. Tive notícias que algumas estão chegando se atolaram no meio do caminho, pessoal da Tibagi está aí, e vai chegar ainda pessoal de Cotriguaçu, do Pacto das Águas e os agricultores que devem chegar agora de noite.

Quero dizer também que quando recebi o convite, sendo informada do tema da mesa de abertura, cujo título é “Rios e redes – A importância dos movimentos sociais na conservação da vida no Tapajós, Teles Pires e Juruena”, ao receber o tema da mesa foi interessante porque pensei assim, bom quem ficar imaginando que vou falar sobre redes, funcionamento, operacionalização, objetivos vai se decepcionar com a minha fala, até porque temos ao longo da programação vários painéis temáticos e um deles vai ser discutido justamente redes, bacias, tudo isso, então não queria pegar o caminho por aí.

Na realidade quando recebi o tema me veio uma imagem muito forte na cabeça, de uma rede estendida entre árvores na beira de um rio, e foi curioso porque fui procurar uma imagem assim que fosse de pintura, no Google Imagens e não apareceu nenhuma, e aí fiquei pensando muito nessa imagem, só que quando a mente fica agoniando nossa o que vou falar, queria falar da rede, do rio, dessa imagem poética, inspiradora, serena, e de repente invadiu a minha imagem o homem branco, só que esse homem que chega com suas dragas,com máquinas passando por cima e destruindo tudo, quando falo dele não estou falando de cor, raça, mas sim de um símbolo, de um símbolo de uma visão de mundo que acredita que tudo que existe no universo é um objeto que serve ao nosso prazer, quando na verdade o que temos diante de nós sobretudo na Rede Juruena e no Mato Grosso, porque na Rede Juruena se a gente tem 8, 10 etnias no Mato Grosso são 47 etnias e o aprendizado, no meu caso que estou desde o Projeto Tucum, 20 anos trabalhando com esses povos, o aprendizado que temos ainda para receber com essas sociedades é muito, porque para essas sociedades as coisas não são objetos, tudo tem vida, possui alma, enquanto o símbolo do homem branco é aquela ideia de tudo desprovido de alma e que por causa disso podemos consumir, consumir, devorar, devorar, devorar, devorar, acha que pode pegar tudo e que não tem que devolver nada, que não precisa dar nada em troca, então essa visão como um símbolo pode ser compartilhada por muitos independente de cor e de raça, então é nesse sentido que falo dessa imagem que veio de sobressalto.

E nessa experiência que temos da organização social indígena, costumamos dizer que pelo menos a velhice traz para nós alguma sabedoria, quando na verdade nós não reconhecemos que a organização social indígena é tão antiga e portanto portadora de uma sabedoria tão imensa que a gente não ouve, nem presta atenção, acha que é de outro tempo, outra época, de um passado que é primitivo, não percebe que ela convive, coexiste a todo momento está nos avisando, ensinando, e explicando como o cosmos funciona, como essas forças todas funcionam, que na realidade elas desenvolveram técnicas milenares não só de adaptação dos espaços onde elas estão e de tantas tecnologias que nós podemos dizer que elas são uma sociedade tão complexa, desenvolvida e tão sabia nos modos de produzir,nos modos de trocar, nos modos de consumir que ela sabe justamente valorizar o que significa o tempo livre para sentar numa rede e contemplar o rio, algo que o símbolo que representa a voracidade do homem branco não percebe, pra ele o rio e a rede não bastam para fazê-lo feliz, ele precisa de papel, muito papel, precisa produzir cifras, precisa produzir estatísticas, precisa produzir lixo, e aí queria dizer que o que nós aprendemos é a importância fundamental que tem a dança, o canto, os ritos, e a celebração que oferta todos os espíritos que já existiram na terra antes de nós, os chamados espíritos ancestrais, tudo que a vida nos oferece, retribuindo então permanentemente a dádiva de estarmos vivos, e o rio é a fonte desta vida.

E como fonte desta vida queria brevemente fazer uma retrospectiva muito rápida, tem as fotos ali no painel, que no I Festival do Juruena Vivo, ele contou com a participação de todas essas etnias, as comunidades de agricultores familiares e das entidades. Na ocasião tinha um grupo em torno de 100, 120 pessoas no I Festival Juruena Vivo que aconteceu no município de Cotriguaçu , na Fazenda São Nicolau, nas margens do Rio Juruena, então tivemos um trabalho muito intenso de informação a rede estava nascendo, antes de fazermos o encaminhamento final todo mundo pegou a trilha, as 100 pessoas que estavam reunidas naquele momento e foram nadar no Rio Juruena pra depois nós voltarmos, e no II Festival, um ano depois, nos encontramos todo mundo novamente em Juína numa proposta também já apoiada pelo Poder Público, na época pela secretaria municipal de cultura de Juína, e nós montamos entre as várias atrações que tinham sido programadas, uma exposição muito bonita, que foi a exposição das águas, e mostramos a situação dos rios em várias bacias hidrográficas do Brasil, desde o Rio Tiete, São Francisco, passando por vários, então quando falamos do Teles Pires, do Xingu e Tapajós que fica mais perto de nós é sempre fundamental essa troca justamente porque ali as coisas já estão acontecendo, e o que temos repetido nos Encontros Juruenas é que o Juruena já vem se preparando com antecedência, que as coisas ainda não chegaram com exceção do complexo lá no alto, já tem algumas, e as PCHs algumas funcionando também ali nos Manokis, os impactos são visíveis, mas nós temos tempo de estar fortalecendo a resistência para manter justamente, como nós sempre comentamos na rede, pelo menos, no mínimo a Bacia do Juruena como testemunho de que é possível a gente estender uma rede, contemplar o rio e pensar na importância da água para nossa vida e existência.

Então agora estamos aqui, no I festival foram 100 pessoas, ano passado por volta de 200, e estou vendo que esse ano triplicou, e novos parceiros entram em cena, então a ideia é que a cada ano a gente possa ir crescendo nessa corrente, e para finalizar queria dizer o seguinte que quando falei da festa, da celebração, que precisa de uma sociedade muito desenvolvida pra compreender a importância dessas praticas, queria dizer que talvez um dos diferenciais que percebo na Rede Juruena é justamente que ela funciona com as comunidades, com seus espaços, com as entidades, com todo mundo fazendo seu trabalho cotidiano, de formiga, de luta do dia a dia, e que uma vez por ano nós nos encontramos para atualizar as informações, manter a troca de experiências, fortalecer nossas praticas, mas também justamente para celebrar e festejar, não sendo a toa que não chamamos de Seminário Juruena, Povo Juruena, mas sim Festival Juruena, então no primeiro as praticas culturais não ficaram tão evidentes, no segundo várias exposições, show do Victor Batista que está aí e virou atrativo da rede, fez um show maravilho para nós e esse ano fará novamente, então dizer que a arte vai crescendo nisso, porque o belo é fundamental na vida e não há beleza sem rio, não há música sem rio, não há festa sem rio, não há celebração sem rio, não há vida sem celebração, e não há celebração sem rio, espero que continuemos festejando muito, porque nós também não temos a Rede Juruena somente para resistir aos empreendimentos que estão aí, nós temos a Rede Juruena como muito bem colocou Daniel para fortalecermos nossas praticas de um desenvolvimento local que possa existir fundamentado nas aptidões que cada uma das comunidades tem, nas aptidões, vocações, nas potencialidades que o Juruena e o Mato Grosso tem, mas, porque pensa em dragas, em grandes negócios, nem pensam em quanto a vida pode ser maior. É isso o que queria falar, muito obrigada, estou agradecida por estar em Juara outra vez”.


O último a se pronunciar foi o padre Edilberto Sena morador de Santarém, do Estado de Pará, também integrante do Movimento Tapajós Vivo!


“Meu nome é Edilberto Sena, sou de Santarém do Pará, primeiro gostaria de fazer uma verificação, quem está aqui presente que é morador da cidade de Juara, levanta o braço por favor, poucas pessoas. Nós viemos de longe, viajamos 26h de ônibus, é asfalto, barro, chuva, etc.. Eu confesso que imaginava Juara um lugar pequeno, uma cidade espremida, fui me espantando na entrada, e vi que aqui tem progresso, sinais de desenvolvimento e acima de tudo tem gente, então vou voltar para o Pará com uma visão diferente de quando estava vindo. Segundo nós viemos 28 pessoas lá da região do Tapajós, Santarém, Itaituba e alto tapajós com parentes Mundurukus, viemos aqui com duas intenções, uma retribuir a presença de uma comitiva daqui do Juruena que foi a caravana lá em Itaituba em agosto passado e segundo sugeri, insisti aos moradores de Juara, aos parentes indígenas, aos outros que estão presentes e são de outros locais que nós estreitemos o companheirismo na defesa do nosso território, que está ameaçado.

E queria refletir da seguinte forma nós estamos vivendo uma guerra no Brasil, literalmente estamos vivendo uma guerra, e é a guerra do capital contra os seres humanos deste país, nesta guerra estamos vendo os sinais, vocês viram o que está escrito no cartaz exposto ‘somos contra o roubo de direitos, não a PEC 241’, é incrível as reações que estão saindo por parte da sociedade civil com aqueles caras de pau, deputados federais pela segunda vez insistem em fazer a PEC 241. Eles estão rindo da nossa cara, e boa parte daqueles deputados são do Mato Grosso e Pará, dos 17 deputados federais do Pará 14 votaram a favor dessa porcaria, quando digo que estamos vivendo uma batalha é caso sério, um combate contra os povos do país, o governo anterior já era ruim e o governo golpista que entrou agora é muito pior, então esses sinais de guerra estão aparecendo, as leis de repressão aos movimentos sociais, a criminalização dos movimentos sociais, a criação de leis humilhando os pobres e trabalhadores e eles com o maior cinismo aumentam o salário dos ministros do supremo tribunal, que é outra nojenteza em nosso país, a parcialidade do supremo tribunal, aumenta o salário dos deputados, senadores, dos governadores, dos vereadores e riem da nossa cara com essa PEC 241.

Por isso estamos vivendo uma guerra, a Amazônia nesta guerra era e continua sendo o eldorado dos empresários, latifúndios, das mineradoras apoiadas por um governo golpista, a nossa Amazônia esta sendo saqueada e as hidroelétricas estão a serviço deste saque, a bacia do rio tapajós vai daqui pra lá, as águas que passam em Santarém vão daqui, do Juruena, do Teles Pires, do Arinos, e de tantos rios, e creio não ser novidade para vocês a cara de pau do governo federal anterior e atual de querer destruir a bacia do rio Tapajós, com mais de 23 barragens, nós que vivemos em Santarém próximo da primeira grande destruição sabemos o desastre econômico, social, ecológico que será se nos permitirmos, mas também se nos deixarmos esse monte de pequenas e médias centrais hidrelétricas no rio Juruena, Teles Pires, nesse monte de rios que temos, nós seremos cúmplices desse crime contra nossos sucessores, nossos filhos e netos e contra nossa Amazônia, é nesse sentido então que meu segundo motivo da nossa presença com vocês. É estreitar não somente parceria, porque parceria é algo leve, é estreitar o companheirismo, nós precisamos ser companheiros nesta guerra, precisamos ter coragem semelhante a de Nelson Mandela na África do Sul, como teve Mahatma Gandhi na Índia e Fidel Castro em Cuba, precisamos ter coragem de enfrentar esses monstros com as armas que nós temos, se o governo federal tem helicópteros, fuzis, força nacional, nós temos nossa dignidade, nossos brios, e se nós decidirmos nos unir o Juruena, Teles Pires, Diamantino e Tapajós, seremos capazes de impedir essas estupidez que querem fazer conosco.


Viemos de longe para dizer aos nossos irmãos, parentes de Mato Grosso vamos unir, respeitar as metodologias, vamos fazer um plano comum de resistência, porque se fizermos isso unidos vamos impedir Temer e essas porcarias todas de políticos que riem da nossa cara usando a lei para humilhar nosso povo, então estamos aqui para convidar e dizer contem conosco na defesa do Juruena e Teles Pires, queremos contar com vocês na defesa do Tapajós e os outros rios. Muito Obrigado”.

Como várias pessoas presentes começaram a gritar FORA TEMER, surgiu à seguinte canção:

Ouviram do Ipiranga Fora Temer

A Imagem do Cruzeiro Fora Temer

Fora Temer... lá,lá,lá, Fora Temer lá,lá,lá, Fora Temer lá,lá,lá,lá,lá Fora Temer, lá,lá,lá Fora Temer, lá,lá,lá,lá,lá,lá, Fora Temer, Fora Temer...

Por: Elizandra Trindade

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