• Sandra Cristina Alves

Humanidade


De onde vem nossa genética? Há uma geração, cada um dos seres humanos tinha dois ancestrais: um pai e uma mãe. Há duas gerações, devemos somar mais quatro indivíduos, nossos avós; chegando em três gerações, temos mais oito bisavós. Concluímos que a cada geração o número de ancestrais é multiplicado por dois.

Para simplificar, se tomarmos o período de vinte anos como a duração média de uma geração, teremos dez gerações no período de duzentos anos. Anos nos quais promovemos uma mudança considerável no perfil do planeta – fração insignificante, quase um piscar de olhos, na história da humanidade.

Seguindo o raciocínio de multiplicar por dois os antepassados a cada geração, em duzentos anos essas dez gerações compreendem o fantástico número de 1.024 antecedentes. Pode ficar mais complicado? Sim, com vinte gerações cada um de nós tem mais de um milhão de antecedentes, ou seja, 1.024 X 1.024, e a trinta gerações, um bilhão, ou 1.024 X 1.024 X 1.024.

A matemática está correta, mas a população da humanidade no passado não é compatível com tais números. Estima-se que no ano 1.400 os seres humanos somavam apenas 375 milhões de indivíduos. Como isso é possível? Simples, a árvore genealógica de qualquer pessoa, quanto mais se recua no passado, irá apresentar mais nomes idênticos, não de homônimos, mas simplesmente dos mesmos indivíduos que irão contribuir com diferentes linhagens.

Exemplificando, os filhos de dois primos que se casaram têm apenas seis bisavós, ao invés de oito, já que dois bisavós são os mesmos dos dois lados. Se forem primos de segundo grau, algo mais comum, os filhos terão apenas quatorze bisavós ao invés de dezesseis. Quanto maior o número de gerações, maior a chance do casal ser primo distante, por uma e às vezes por várias linhagens. Não admira que, se recuarmos dez gerações, todo e qualquer cônjuge que escolhermos terá um antepassado comum conosco. Só não sabemos disso porque os registros de antepassados são difíceis de conseguir (existem até profissionais que se dedicam a pesquisar a árvore genealógica de clientes, celebridades ou políticos) ou mesmo inexistentes.

Os pesquisadores genéticos estimam que há quarenta gerações, ou 800 anos, cada um de nós tinha milhões de ancestrais, atingindo um limiar, ou seja, incluindo boa parte da população da região do mundo na qual nossos ancestrais viviam – sem prejuízo de intercâmbios genéticos representados por migrantes, comerciantes, emissários, marujos, aventureiros e até escravos que contribuíram com a carga genética de todas as populações que se consideram isoladas das demais.

Assim, se recuarmos 1.600 anos, podemos dizer que nossos ancestrais incluem a maior parte da população adulta de três continentes. Incluindo, claro, também as celebridades históricas como Carlos Magno, Nefertiti, Confúcio e Júlio César, ou seja, todos que tiveram filhos e estes tiveram filhos, pois o recuo em alguns milênios faz com que toda a humanidade se torne parente. Não é de se admirar que a história de Adão e Eva ainda seja tomada como uma verdade real. Do ponto de vista estatísticos, temos todos a mesma origem.

Independentemente de qual antepassado tenhamos herdado o nosso sobrenome, nós carregamos apenas uma fração do DNA de cada um deles, ou mesmo nenhuma - o– cromossomos se recombinam a cada geração, de modo que todos os sete bilhões de seres humanos do presente apresentam seguimentos do DNA das milhares de pessoas que existiam a alguns milhares de anos, numa verdadeira colcha de retalhos.

Assim fica o ridículo de se pretender a existência de raças puras, ou superiores às demais. Todo grupo genético é resultado da mistura de muitos grupos anteriores, não fazendo sentido qualquer conceito de etnia em separada, que tivemos até a extinção do homem de Neanderthal. O DNA dos habitantes da Terra é tão semelhante que não pode justificar, do ponto de vista da biologia, diferenças sociais. O gosto pessoal, a personalidade e a capacidade de cada individuo não é determinada pela história biológica dos ancestrais, mas sim dos atributos individuais, das experiências e opções de cada um.

No livro Siddhartha, de Herman Hesse, é narrada uma história que ilustra esta conclusão. Na Índia antiga, Siddhartha se propõe a enxergar a realidade por detrás de um mundo de aparências. Anos depois de muito estudo e viagens ele se torna um barqueiro, aprendendo com o predecessor a escutar as vozes do rio. Tempo depois um amigo de infância, chamado Govinda, vem visitá-lo e após uma longa conversa das relações entre ilusão e verdade, da existência do passado e futuro no presente, de termos não só de conhecer o mundo mas também de amá-lo, Govinda finalmente pergunta a Siddhartha como ele conseguiu atingir a paz em sua vida. Ele responde dizendo ao amigo que o beije em sua testa, sendo atendido apesar da surpresa, e ao fazê-lo Govinda tem uma visão fantástica:

“Não via mais o rosto do amigo Siddhartha. Em seu lugar, via outros rostos, muitos rostos, uma longa série, um desfile contínuo de rostos – centenas, milhares que apareciam, desapareciam e, no entanto, pareciam estar todos ali ao mesmo tempo, que mudavam sem parar, mas eram todos Siddhartha... Viu o rosto de uma criança recém-nascida, vermelho e cheio de rugas, prestes a chorar. Viu o rosto de um assassino... Viu os corpos nus de homens e mulheres nas posições e arroubos do amor apaixonado... Cada um deles era mortal: um exemplo penoso de tudo o que é transitório. Entretanto, nenhum morria: apenas mudavam, renasciam, adquiriam novos rostos; apenas o tempo separava um rosto do outro”.


Por: Sandra Cristina Alves, é defensora pública do Estado, escritora, escreve exclusivamente para o blog do site RdNews toda segunda-feira.

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