Relato de uma ex-detenta: “Diziam ao meu filho que eu trabalhava fora”
- Gabriela Guimarães
- 26 de jan. de 2018
- 3 min de leitura

Hannah Isabela Gonçalves da Rocha, 30 anos, foi presa pela primeira vez quando era adolescente. Ela também era mãe de um menino de 1 ano e precisou lidar com a dolorosa separação da família. Hoje, 5 (cinco) anos depois que foi solta, ainda enfrenta dificuldade para se reintegrar à sociedade.
“Acabei presa aos 15 anos por tráfico de drogas. Na época, meu filho tinha 1 ano e 2 meses, mamava no peito ainda. Durante os cinco meses em que fiquei na prisão, deixei ele com a minha irmã. Quando saí, nem consegui retomar a guarda dele – minha irmã nem cedeu e a Justiça também não. Pior que isso, só a reação dele quando me viu: nem me reconheceu. Foi horrível! Eu soube ali o que as outras mulheres que estavam ainda na prisão passariam ao sair. Mais triste do que presenciar suicídios na cadeia, era ver grávidas chegando, tendo o bebê lá e, depois, tendo que entregar para a família ou para a doação.
DE VOLTA À CADEIA
Quando fiquei livre, terminei o ensino médio e fiz gestão empresarial com ênfase em administração. Mas, aos 25 anos, fui parar na cadeia novamente. Desta vez, nem tinha feito nada, mas meu marido sim. Me levaram junto com ele, por causa de um assalto. Disseram que uma pistola e um revólver eram meus. Só consegui porque pedi a perícia das armas e nem tinha nenhuma digital minha. Mesmo assim, fiquei um ano na cadeia. Já tinha outra filha, que estava com 6 anos. O meu mais velho, que estava com a minha irmã, tinha 11 anos. Eu também estava grávida na época, mas no segundo mês de gestação tive um aborto espontâneo na prisão.
A SAUDADE NO CÁRCERE
A minha irmã dizia ao meu filho que eu estava trabalhando fora, eles nunca foram me visitar. Preferia assim, nem achava legal ficar levando eles. Sozinha, lá dentro, só pedia a Deus que meu coração não esfriasse junto com o ritmo da cadeia. Lá você vale o que tem, as coisas mais supérfluas corrompem. Para me manter firme, tinha fotos deles e também cartas que minha mãe enviava com o perfume deles. Pelo menos podia sentir o cheiro dos meus filhos.
MEU FILHO DESCOBRIU QUE EU ESTAVA PRESA
Um dia meu filho pegou uma carta que escrevi para minha mãe. Ao ver o endereço da penitenciária como remetente, ele disse: ‘Vó, a Hannah tá presa, né?’. Minha mãe nem conseguiu negar. Sei que ele chorou muito, mas nunca questionou a mim nem a ninguém da minha casa. A minha filha ficou sob os cuidados do meu pai, até ele falecer. Hoje, ela mora comigo. É muito carinhosa.
O REENCONTRO COM A MINHA FAMÍLIA
Sai num dia de chuva, foi maravilhoso! Tomei o melhor banho de chuva da minha vida! Pulei e gritei muito na rua, parecia louca. Tirando o nascimento de um filho (a), ter a liberdade de volta é a melhor sensação que existe. O reencontro com a minha família foi lindo. Na época, minha filha nem entendia muito bem o que era a mãe estar presa. Hoje ela já sabe, mas isso nem a afetou muito. Já meu filho, que ficou com a minha irmã, sabe que sou mãe dele, reconhece os irmãos (tenho mais um filho, de 1 ano), mas nem me chama de mãe e nem meu marido de pai. Isso já me corroeu muito, mas hoje nem tanto. Consigo vê-lo o tempo todo, porque eu e minha irmã somos vizinhas.
TENTATIVAS DE REINTEGRAÇÃO À SOCIEDADE
Já faz cinco anos que saí da prisão e ainda nem consegui trabalho, por ser ex-presidiária e mulher de um detento. Chego a ser contratada, mas quando descobrem que visito meu marido na cadeia e que também já fui presa, me mandam embora. Já passei por isso três vezes. Falam que nem podem continuar comigo, porque meu passado coloca como uma pessoa de caráter e conduta duvidosos. Atualmente vivo com ajuda da minha mãe e com o dinheiro de alguns bicos de faxina que faço. Meu marido trabalha na penitenciária e ganha um dinheirinho também, o que me ajuda”.
Por: Gabriela Guimarães






































































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