Empresas escondem informações sobre roubos de R$ 343 milhões a fortalezas e carros-fortes
- Eduardo Militão
- 30 de jan. de 2018
- 4 min de leitura

Somente de novembro de 2015 a agosto de 2017, R$ 128 milhões foram roubados em 156 ataques a carros-fortes.
Os bandidos chegam pela madrugada. Agem rápido com dezenas de comparsas e veículos, por vezes caminhonetes e até caminhões. Fecham as ruas e isolam a região. Com armas de alto calibre, algumas 50, rendem os seguranças, matam até policiais se julgarem necessário, instalam explosivos numa parede com ajuda de um profissional acostumado a detonar minas no Norte ou no Nordeste. Bum! Uma explosão, ora cirúrgica ora espalhafatosa, abre uma porta ou derruba uma parede inteira. Os ladrões entram e levam milhões em dinheiro vivo guardados dentro de empresas que fazem transporte e armazenagem de valores no país.
Dados das polícias civis, da Federação Nacional dos Policiais (Fenapef), da área de inteligência da Polícia Federal e de seguranças levantados pela Revista Congresso em Foco mostram que pelo menos R$ 343 milhões foram roubados de carros e bases fortes em condições parecidas com as descritas acima apenas nos últimos dois anos. Desse total, R$ 215 milhões foram levados em dez assaltos, feitos em seis Estados, nas bases das empresas especializadas na armazenagem de dinheiro, verdadeiras “fortalezas”. Uma média de R$ 21 milhões por roubo. Nesses casos, seis pessoas foram mortas. Os R$ 128 milhões foram subtraídos em 156 ataques a carros-fortes, quando os roubos são menores, média de R$ 848 mil por ação.
Os valores envolvidos e o número de atos criminosos tendem a ser ainda maiores devido à morosidade das empresas em registrar a ocorrência, que chega até a dois meses. Os assaltos dessa natureza são um negócio de alta lucratividade e baixo risco, apontam especialistas das áreas de segurança pública e de combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro. Gigantes do setor, a Prosegur, a Protege, a Brinks, a Rodoban e a Servi-San se negaram a informar à reportagem a data em que comunicaram o quanto foi levado pelos criminosos em dez assaltos às suas bases fixas entre novembro de 2015 e de 2017.
Para o presidente da Federação Nacional dos Policiais (Fenapef), Luís Antônio Boudens, há algo estranho aí. “Os órgãos de fiscalização são surpreendidos quando essas empresas são assaltadas e são revelados os valores reais”, afirma o policial. Ele acredita que, por trás da demora na prestação de informações, a estratégia é evitar três problemas. “Uma coisa é se preservar da questão da seguradora, outra é não chamar a atenção para o valor roubado, tanto de autoridades de fiscalização quanto de outros grupos criminosos”, avalia.
BOI E BOIADA
O cientista político e especialista em segurança Guaracy Mingardi tem opinião semelhante. “Pode ser valor maior ali ou menor. Se falarem mais do que têm, vão receber mais seguro. Se falarem menos, vão dizer: ‘Não precisa perder a confiança em nós’. Eu não tenho certeza se eles declaram o valor correto’, observa. Para Guaracy, as empresas têm informações bem contabilizadas para saber quanto há nos cofres e descobrir quanto foi roubado. “Elas não demoram: é uma politica delas para alguma coisa que nem querem revelar. Pode ser dinheiro não declarado, não dá pra ter certeza”, pondera.
O auditor e consultor Alexandre Botelho, um dos fundadores do Instituto de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (IPLD), diz a demora é injustificável e pode esconder crimes de terceiros. “Em vários episódios nesses assaltos a grandes transportadoras, nunca é revelado o valor efetivamente subtraído e, por vezesm o cliente nem vai lá reclamar. Por que? Porque é valor não declarado, são recursos oriundos de corrupção, tráfico, jogo de bicho, isso não só em moeda nacional, mas estrangeira também.” Boudens desconfia até de guarda ilegal de armas e drogas nas bases fortes. “Como nem tem fiscalização, onde passa um boi, passa boiada”, afirma o presidente da Federação Nacional dos Policiais (Fenapef).
BUNKER DE GEDDEL
O presidente do Sindicato dos Analistas do Banco Central (Sinal). Jordan Pereira, diz que a circulação indevida de grandes quantidades de valores em espécie – como os R$ 51 milhões apreendidos em um apartamento cedido ao ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) em Salvador (BA) – está também relacionada à falta de fiscalização nas empresas de segurança.
“Transportadoras de valores que ‘dormem’ com uma grande quantidade de valores podem ‘emprestar’ esse dinheiro”, afirmou ao comentar a situação do aliado do presidente Michel Temer. Desde 2012, as empresas de guarda de valores passaram a prestar contas à Polícia Federal (PF) e ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que fez 125 relatórios a partir de 7 mil operações suspeitas. Sob anonimato, um juiz especializado em lavagem disse ser preciso apurar se as firmas de segurança fazem operações de débito e crédito internamente, entre seus clientes, como indicam as apurações sobre Sérgio Cabral.
Procuradas durante vários dias, em quatro ocasiões, as cinco empresas vítimas de roubo – Prosegur, Protege, Brinks, Rodoban e Servi-san se negaram a prestar informações ou conceder entrevistas. A Associação Brasileira de Transporte de Valores (ABTV) só se manifestou em nota onde afirma que o setor investiu R$ 400 milhões nos últimos cinco anos. E alega que a demora na prestação de informações se deve ao estado em que as bases fortes ficam após as explosões, o que tornaria “operação complexa” a contagem do dinheiro, “que exige dedicação por até semanas da empresa e autoridades”. A associação disse ser “importante definir o valor com o máximo de celeridade para que as seguradoras sejam acionadas, além de contribuir com as investigações”. A ABTV afirma que as unidades-fortes são fiscalizadas pela Polícia Federal (PF), que “realiza anualmente vistorias técnicas em todas as bases” e lembrou que faz comunicações ao Coaf.
ESPECIALIZADOS
O presidente da Federação Nacional dos Policiais, Luís Boudens, afirma que existem quatro quadrilhas no Brasil com explosões e roubando milhões de reais de bases fortes de empresas de guarda e transporte de valores. O negócio lucrativo para a bandidagem usa técnicas do “novo cangaço” do Norte e Nordeste, quando uma cidade inteira é assaltada nos locais onde mais se circula dinheiro. Em 2017, parte das quadrilhas foram presas pela Polícia Civil de São Paulo. Um dos líderes foi detido após assalto em Uberaba, em Minas Gerais (MG), segundo uma fonte. A ABTV culpa o tráfico de armas e explosivos pelo aumento dos crimes desde 2015.
Para Guaracy Mingardi, a lucratividade, o maior acesso a armamentos e o exaurimento do mercado de drogas são alguns dos incentivos para as explosões das bases. Para prevenir e combater essa modalidade criminosa, ele e Boudens defendem mais integração entre as polácias, controle maior de explosivos, melhora nos controles das empresas e até redução da quantidade de dinheiro guardado por elas.
Por: Eduardo Militão






































































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